Artigo

Intermarché: os números do primeiro cliente, e o que correu mal.

26 de agosto de 2026 · 5 min de leitura · Notchel

A fachada do Intermarché Contact onde o sistema está instalado, visto do parque de estacionamento.

Este Intermarché foi o nosso primeiro cliente, e isso diz-se com gratidão. Confiar num sistema novo para uma coisa tão sensível como as horas de quem lá trabalha não é um favor pequeno.

Todos os números deste artigo saem da base de dados em produção, contados caso a caso, com o período ao lado. Não há aqui uma única média de brochura.

O ponto de partida: um cartão que só falava no fim do mês

Antes de nós, a loja tinha o sistema clássico: cada pessoa com um cartão, passava-o quando entrava e saía. O problema não era o cartão. Era tudo o que acontecia à volta dele, e sobretudo quando se ficava a saber.

O que se viaOnde estava o problema
Picagens só consultadas no fim do mêsErros descobertos semanas depois de nascerem
Esquecimentos frequentes, às vezes propositadosSem validação diária, o esquecimento compensa
Cartões passados por colegasO cartão prova presença do cartão, não da pessoa
Fecho de contabilidade de 1,5 a 2 diasAfinar picagens à mão, Excel, CSV, e só depois o software de salários

O fecho merece descrição, porque é onde o custo se acumula. No fim de cada mês, a contabilista pegava nas picagens em bruto e afinava-as uma a uma: esquecimentos, trocas, saídas sem registo. Depois Excel. Depois CSV. Depois faltas, férias e baixas. E só então o processamento salarial. Entre 1,5 e 2 dias, todos os meses, para reconstruir à mão aquilo que o sistema devia ter registado bem à primeira.

E há um custo que não aparece em folha nenhuma: quando o registo é fraco, ele falha nos dois sentidos. Um colaborador pode aproveitar a ausência da chefia; uma chefia pode aproveitar uma picagem em falta para discutir horas que eram devidas.

A instalação: um dia por loja

O desenvolvimento do reconhecimento por câmara começou no início de Julho de 2026. A instalação física fez-se num único dia: o terminal, o par de câmaras e o mini-PC que processa tudo localmente. Com a experiência que ficou, cada estação monta-se em uma a duas horas.

Nós demorámos mais. A razão está na secção do que correu mal, porque foi precisamente a primeira coisa a correr mal.

Os salários de Agosto de 2026 já foram processados com o nosso software.

Os números

MétricaAntesSetembro de 2026
Visibilidade das picagensNo fim do mêsNo próprio dia
Registos processados por diaSem medição514 em média, pico 649
Fecho de horas, por mês1,5 a 2 dias3 a 4 h
Correcções manuais no fechoTodas1

As 3 a 4 horas do primeiro fecho incluem os ajustes iniciais do software. É o tecto, não a média.

Quantos esquecimentos é que a câmara apanha mesmo

É a pergunta que interessa a quem gere, e a única resposta que vale é a contada caso a caso. Aqui está, esquecimento a esquecimento, nos dois meses em que o sistema esteve em produção.

PicagensAgosto (31 dias)Setembro (1 a 15)
Registadas2 052856
Esquecimentos5621
Preenchidos pela câmara32 (57 %)18 (86 %)
Corrigidos por uma pessoa211
Ainda em aberto32

Vinte e uma correcções humanas em Agosto. Uma em Setembro. Isto não é afinação de arranque, é o sistema a fazer aquilo para que foi construído, e a fazê-lo com câmaras que escolhemos de propósito piores do que as disponíveis, porque sacrificámos qualidade de imagem pela segurança dos dados e pelo custo da instalação. Oitenta e seis por cento com o hardware travado. Para a próxima implementação já temos hardware melhor seleccionado, e é exactamente neste número que esperamos vê-lo.

Publicamos os 2 casos que continuam em aberto pela mesma razão que publicamos o resto: um número que não admite os seus buracos não é um número, é publicidade.

As duplicadas, que o sistema antigo nem via

A mesma pessoa a passar o cartão duas vezes por engano. No sistema antigo era mais um caso para a contabilista descobrir e limpar à mão no fecho. Agora resolvem-se no próprio dia, sem intervenção: 8 em Agosto, 2 em Setembro, nenhuma chegou ao fecho.

O que correu mal

Dois episódios verdadeiros, escolhidos por serem os que mais ensinaram.

As câmaras vieram mal configuradas de fábrica. Descobrimo-lo no dia da instalação, com a equipa em Braga e o escritório em Lisboa. Ir e voltar só para reconfigurar câmaras não fazia sentido, portanto a solução foi local: um colega de lá configurou-as e no dia seguinte estava tudo ligado. Hoje, montar cada instalação de forma a que tudo seja alcançável e corrigível remotamente faz parte do nosso padrão. Quando um erro aparecer, e vai aparecer, não sabemos à partida onde está; o que garantimos é não precisar de 700 quilómetros de estrada para o ir ver.

Ligar as câmaras aos cartões foi uma dor de cabeça a sério. Parecia um detalhe e tornou-se a peça mais específica de cada cliente. Custou semanas de afinação, e continua a afinar-se. Quem lhe disser que esta integração funciona de caixa, sem conhecer a operação da loja, está a vender-lhe uma demonstração.

Onde ficam os dados: nem um pixel sai da loja

Este caso envolve reconhecimento facial de trabalhadores, e não escrevemos sobre ele sem dizer onde ficam os dados. A resposta cabe em três frases.

Não existe um único pixel de cara guardado em lado nenhum: a imagem é imediatamente convertida num modelo cifrado por um algoritmo irreversível. Todo o processamento de vídeo acontece no mini-PC instalado na loja; nenhum vídeo viaja para a internet. A única coisa que sai para a aplicação é o evento da picagem: a Maria picou às 19:32:12 no dia 23. Mais nada, porque mais nada é preciso.

O enquadramento completo (artigo 18.º do Código do Trabalho, Lei 58/2019, AIPD) está no artigo sobre o que a lei permite e não permite.

O que esta loja mudou no produto

  • Implementação remota por desenho. Nasceu do episódio das câmaras: cada instalação fica preparada para diagnóstico e correcção à distância desde o primeiro dia.
  • O motor de escalas por loja e por turno. Nasceu da dor de cabeça da integração: é o que permite validar as excepções com contexto em vez de despejar alertas.
  • Arranque faseado como regra. O paralelo com o sistema antigo passou a procedimento normal, porque é o que permite adoptar o sistema com o mínimo risco.

Um primeiro cliente exigente no início da vida de um produto não é só receita: é o melhor departamento de qualidade que se pode ter, desde que estejamos dispostos a ouvir e a escrever preto no branco o que correu mal.

Quer comparar estes números com os da sua operação? A primeira reunião são 20 minutos e não precisa de mais preparação do que um fecho de mês recente em cima da mesa.

Guilherme Gameiro
Engenheiro e Co-Fundador da Notchel.