Artigo
Intermarché: os números do primeiro cliente, e o que correu mal.
Este Intermarché foi o nosso primeiro cliente, e isso diz-se com gratidão. Confiar num sistema novo para uma coisa tão sensível como as horas de quem lá trabalha não é um favor pequeno.
Todos os números deste artigo saem da base de dados em produção, contados caso a caso, com o período ao lado. Não há aqui uma única média de brochura.
O ponto de partida: um cartão que só falava no fim do mês
Antes de nós, a loja tinha o sistema clássico: cada pessoa com um cartão, passava-o quando entrava e saía. O problema não era o cartão. Era tudo o que acontecia à volta dele, e sobretudo quando se ficava a saber.
| O que se via | Onde estava o problema |
|---|---|
| Picagens só consultadas no fim do mês | Erros descobertos semanas depois de nascerem |
| Esquecimentos frequentes, às vezes propositados | Sem validação diária, o esquecimento compensa |
| Cartões passados por colegas | O cartão prova presença do cartão, não da pessoa |
| Fecho de contabilidade de 1,5 a 2 dias | Afinar picagens à mão, Excel, CSV, e só depois o software de salários |
O fecho merece descrição, porque é onde o custo se acumula. No fim de cada mês, a contabilista pegava nas picagens em bruto e afinava-as uma a uma: esquecimentos, trocas, saídas sem registo. Depois Excel. Depois CSV. Depois faltas, férias e baixas. E só então o processamento salarial. Entre 1,5 e 2 dias, todos os meses, para reconstruir à mão aquilo que o sistema devia ter registado bem à primeira.
E há um custo que não aparece em folha nenhuma: quando o registo é fraco, ele falha nos dois sentidos. Um colaborador pode aproveitar a ausência da chefia; uma chefia pode aproveitar uma picagem em falta para discutir horas que eram devidas.
A instalação: um dia por loja
O desenvolvimento do reconhecimento por câmara começou no início de Julho de 2026. A instalação física fez-se num único dia: o terminal, o par de câmaras e o mini-PC que processa tudo localmente. Com a experiência que ficou, cada estação monta-se em uma a duas horas.
Nós demorámos mais. A razão está na secção do que correu mal, porque foi precisamente a primeira coisa a correr mal.
Os salários de Agosto de 2026 já foram processados com o nosso software.
Os números
| Métrica | Antes | Setembro de 2026 |
|---|---|---|
| Visibilidade das picagens | No fim do mês | No próprio dia |
| Registos processados por dia | Sem medição | 514 em média, pico 649 |
| Fecho de horas, por mês | 1,5 a 2 dias | 3 a 4 h |
| Correcções manuais no fecho | Todas | 1 |
As 3 a 4 horas do primeiro fecho incluem os ajustes iniciais do software. É o tecto, não a média.
Quantos esquecimentos é que a câmara apanha mesmo
É a pergunta que interessa a quem gere, e a única resposta que vale é a contada caso a caso. Aqui está, esquecimento a esquecimento, nos dois meses em que o sistema esteve em produção.
| Picagens | Agosto (31 dias) | Setembro (1 a 15) |
|---|---|---|
| Registadas | 2 052 | 856 |
| Esquecimentos | 56 | 21 |
| Preenchidos pela câmara | 32 (57 %) | 18 (86 %) |
| Corrigidos por uma pessoa | 21 | 1 |
| Ainda em aberto | 3 | 2 |
Vinte e uma correcções humanas em Agosto. Uma em Setembro. Isto não é afinação de arranque, é o sistema a fazer aquilo para que foi construído, e a fazê-lo com câmaras que escolhemos de propósito piores do que as disponíveis, porque sacrificámos qualidade de imagem pela segurança dos dados e pelo custo da instalação. Oitenta e seis por cento com o hardware travado. Para a próxima implementação já temos hardware melhor seleccionado, e é exactamente neste número que esperamos vê-lo.
Publicamos os 2 casos que continuam em aberto pela mesma razão que publicamos o resto: um número que não admite os seus buracos não é um número, é publicidade.
As duplicadas, que o sistema antigo nem via
A mesma pessoa a passar o cartão duas vezes por engano. No sistema antigo era mais um caso para a contabilista descobrir e limpar à mão no fecho. Agora resolvem-se no próprio dia, sem intervenção: 8 em Agosto, 2 em Setembro, nenhuma chegou ao fecho.
O que correu mal
Dois episódios verdadeiros, escolhidos por serem os que mais ensinaram.
As câmaras vieram mal configuradas de fábrica. Descobrimo-lo no dia da instalação, com a equipa em Braga e o escritório em Lisboa. Ir e voltar só para reconfigurar câmaras não fazia sentido, portanto a solução foi local: um colega de lá configurou-as e no dia seguinte estava tudo ligado. Hoje, montar cada instalação de forma a que tudo seja alcançável e corrigível remotamente faz parte do nosso padrão. Quando um erro aparecer, e vai aparecer, não sabemos à partida onde está; o que garantimos é não precisar de 700 quilómetros de estrada para o ir ver.
Ligar as câmaras aos cartões foi uma dor de cabeça a sério. Parecia um detalhe e tornou-se a peça mais específica de cada cliente. Custou semanas de afinação, e continua a afinar-se. Quem lhe disser que esta integração funciona de caixa, sem conhecer a operação da loja, está a vender-lhe uma demonstração.
Onde ficam os dados: nem um pixel sai da loja
Este caso envolve reconhecimento facial de trabalhadores, e não escrevemos sobre ele sem dizer onde ficam os dados. A resposta cabe em três frases.
Não existe um único pixel de cara guardado em lado nenhum: a imagem é imediatamente convertida num modelo cifrado por um algoritmo irreversível. Todo o processamento de vídeo acontece no mini-PC instalado na loja; nenhum vídeo viaja para a internet. A única coisa que sai para a aplicação é o evento da picagem: a Maria picou às 19:32:12 no dia 23. Mais nada, porque mais nada é preciso.
O enquadramento completo (artigo 18.º do Código do Trabalho, Lei 58/2019, AIPD) está no artigo sobre o que a lei permite e não permite.
O que esta loja mudou no produto
- Implementação remota por desenho. Nasceu do episódio das câmaras: cada instalação fica preparada para diagnóstico e correcção à distância desde o primeiro dia.
- O motor de escalas por loja e por turno. Nasceu da dor de cabeça da integração: é o que permite validar as excepções com contexto em vez de despejar alertas.
- Arranque faseado como regra. O paralelo com o sistema antigo passou a procedimento normal, porque é o que permite adoptar o sistema com o mínimo risco.
Um primeiro cliente exigente no início da vida de um produto não é só receita: é o melhor departamento de qualidade que se pode ter, desde que estejamos dispostos a ouvir e a escrever preto no branco o que correu mal.
Quer comparar estes números com os da sua operação? A primeira reunião são 20 minutos e não precisa de mais preparação do que um fecho de mês recente em cima da mesa.
Guilherme Gameiro
Engenheiro e Co-Fundador da Notchel.